*Por Scher Soares
Em que casos uma sociedade pode ser desfeita? Dependendo do tipo de empresa, é necessário encontrar outro sócio?
Do ponto de vista do alinhamento necessário entre os sócios para uma boa sociedade, quaisquer aspectos que tenham grande potencial de conflito entre os sócios pode ser um motivo para reavaliação da sociedade. Outra questão a se considerar é o potencial cumulativo das diferenças entre os sócios, pois situações que aparentemente são suportáveis no curto prazo podem se mostrar inviáveis no médio e longo prazo. Sócios com visões muito diferentes em um único e mesmo negócio por exemplo tem grande potencial de conflito, pois as decisões de ambos estão subordinadas a premissas diferentes. Vale ressaltar que não estou propondo aqui que os sócios tenham os mesmos pontos de vista, pois quando dois sócios concordam em tudo, talvez um só bastasse. O fundamental é que os objetivos entre os sócios estejam alinhados e também os papéis. São esses os dois pontos fundamentais para a sustentabilidade de uma boa sociedade.
Já no quesito substituição de sócio, isso vai depender diretamente do modelo de negócios da empresa e das variáveis que compõem o negócio. Se o sócio que se retira emprestava à sociedade alguma força de trabalho relevante ou conhecimento especializado, há uma necessidade latente e urgente da substituição. Cabe lembrar que um dos principais motivos para o inicio do desgaste entre sócios em uma sociedade é justamente o não preenchimento de determinado papel por parte de algum sócio, fazendo com que o outro, ou os demais sintam-se sobrecarregados e não percebam valor na atividade desse sócio que não desempenha uma atividade que gere impacto na empresa.
Quais são as maneiras de desfazer uma sociedade?
Se estivermos falando do ponto de vista legal, é apenas uma questão de termos do contrato. A definição pela saída do sócio conta muito. A decisão é compartilhada por quem fica e quem sai ou é uma decisão unilateral ou de uma parte dos sócios? Os contratos podem conter expedientes que poderão reger isso. Um sócio pode sair da operação e continuar na empresa ou pode sair definitivamente. As condições dependerão também dos aspectos econômicos financeiros. Uma empresa de maior porte poderá submeter a saída à responsabilidade em quotas do sócio, sejam para fins de aporte por questões de prejuízo econômico seja por questões de dividendos. O valor da empresa também é decisivo. Se a empresa tem um valor de mercado, cada sócio detém sua parte desse valor. Por outro lado, empresas ainda em fase de construção as vezes resultam na saída de um sócio sem necessidade de alinhamento de contas. A melhor coisa a se fazer é fazer bem feito esse processo e evitar problemas futuros. Finalizar a relação de vez e seguir cada sócio para o seu lado.
Quais são os tipos de sócio indesejáveis (características)?
O sócio indesejável é aquele que não atende as expectativas da empresa e da sociedade, lembrando que essas expectativas variam muito de negócio para negócio. Contudo, há alguns perfis característicos que merecem a atenção. São eles:
O empresário de mentirinha – esse é aquele sócio que muitas veze está empreendendo pela primeira vez e normalmente de carona com algum sócio com o perfil mais empreendedor e visionário. O empresário de mentirinha tão logo entra em uma sociedade já começa a se ver como um grande empresário e a – como eu costumo dizer – brincar de empresário. Começa a fingir ser algo que ele não é e com frequência assumte posturas que levam a péssimos resultados.
O oportunista – um tipo de sócio muito perigoso, pois com frequência é preguiçoso e está interessado apenas em se beneficiar da sociedade. Tem um perfil instável e não está disposto a fazer o que precisa ser feito. No geral, entra em uma sociedade procurando por aquela oportunidade de ouro e tão logo vê que há pela frente trabalho duro e uma longa jornada, deixa o sócio na mão.
O especulador – você conhece um sócio especulador quando já de início ele quer discutir demais questões como por exemplo os ganhos dele no curto prazo, quando ele passará a ter aquela remuneração de empresário e qual será o lucro que ele embolsará a cada ano. Aqui não devemos confundir o especulador com o investidor. O investidor precisa discutir essas questões para arquitetar seu investimento, mas o especulador é aquele sócio que, apesar de ter um papel na empresa, está interessado apenas em si mesmo. Fuja dele.
O sócio no bônus – você certamente já ouviu falar que abrir uma empresa tem seus bônus e ônus. O que as vezes as pessoas não explicam é que, com frequência os ônus são todos no curto prazo e muito intensos, ao passo que o bônus só vem no longo prazo e mesmo assim aos poucos. Esse é outro perfil de sócio para você passar longe. São avessos ao ônus, não lidam bem com adversidades, não estão dispostos a pagar o preço e podem, além de não agregar nenhum valor, quebrar a empresa já no começo em função do seu apetite pelos bônus.
Existem maneiras de se prevenir contra um mau sócio?
A regra aqui é criar uma massa crítica que te dê condição de avaliar melhor a compatibilidade do candidato a sócio com o perfil do negócio que se deseja para a empresa e também a compatibilidade com o perfil dos demais sócios. Pesquisar principalmente os motivos pelo qual essa pessoa deseja entrar na sociedade. Pessoas que adentram uma sociedade, principalmente em empreendimentos de pequeno porte e que são motivadas por questões como ganhar muito dinheiro no curto prazo, ter mais liberdade, não ter chefes e coisas do gênero com frequência apresentam uma curva de aprendizado como empreendedor longa, com muitos efeitos colaterais e nem sempre sustentável. Alem dos motivos, analise o histórico de vida dessa pessoa, tanto no ambiente profissional como pessoal e diagnostique como ela lidou com situações que exigirão as competências necessárias à sociedade. Tambem é importante compreender as questões financeiras, como reservas, fôlego e necessidades inegociáveis. Para complementar, façam uns ensaios com visões de futuro pessimistas e se coloquem nessas situações para explorar a maneira de lidar e reagir do candidato a sócio. Finalmente, um bom contrato e bons conselheiros são essenciais para conseguir os mecanismos de proteção adequadas.
É possível identificar um mau sócio antes de formar a sociedade?
As vezes. Isso depende de uma série de questões. Cabe aqui o cuidado com os preconceitos, pois mesmo pessoas com um histórico desfavorável podem vir a se tornar grandes sócios em uma empresa. Contudo, isso funciona como em outras áreas. Por exemplo no esporte, é mais provável que pessoas com perfil mais atlético, explosivo e com grande energia muscular tendam a se tornar melhores corredores do que pessoas de baixa estatura, com baixa energia e uma estrutura física desfavorável. Um mau sócio com frequência tem elementos identificáveis que merecem ser analisados. Uma curiosidade por exemplo é o fato de que, com frequência, bons executivos são péssimos empreendedores. Isso se explica pelo fato de alguns deles terem passado toda sua carreira em empresas muito grandes e estruturadas, com muitos recursos e com uma dinâmica muito bem resolvida. Esse executivo quando precisa fazer a coisa acontecer dentro de uma estrutura menor e mais exigente quanto a resultados no curto prazo as vezes sequer sabe por onde começar e com frequência não está disposto a fazer o que um empreendedor precisa fazer para construir uma empresa.
Assim observo; construir uma empresa é diferente de tocar uma empresa. Ser executivo é radicalmente diferente de ser empreendedor. Ser motivado é completamente diferente de ser resiliente e são aspectos como esses que as vezes passam despercebidos na hora de escolher um sócio.
*Scher Soares é consultor Empresarial e presidente do Grupo Triunfo, holding que controla as empresas Triunfo Propaganda, Triunfo Consultoria e Treinamento, Renco SP Equipamentos, Track Digital e MNO